"Toda memória de um homem é sua literatura particular"

domingo, 5 de julho de 2015

Carol ventania

              Esse é um texto que já tem uns 3 anos e estava engavetado e agora salta para um novo projeto que está se formando. Espero que gostem. Boas leituras!




              ...Um dia sua vida ventou tanto que deu um beijo no Saci e se apaixonou.
            Daí correu descansada de todo o resto: elefante, papagaio, grito de pai, tristeza de mãe e até da prova de Dona Marisa, que sempre a deixava de recuperação.
            Mas o gorro do Saci é vermelho como o sangue: seus pensamentos continuavam rodando, mesmo com tudo para trás:

            Raivosos de sangue.
            Inspirados de sangue.
Menarcos de sangue.
Apaixonados de sangue.

Apaixonados pelo Saci que saiu ventando e nunca mais o encontrou.
Na verdade, ela sempre havia sido furacão: quando pequena sua mãe dizia:

- Carolina, quebrou a cadeira!
- Outro óculos, menina?
- Vá lavar esse tênis sujo de lama!

O vento já estava em seus pés.
Mas quando o Saci a beijou... Rodogirou todas as suas entranhas:

Coração, cérebro e útero.

Correu louca e sossegada.
Até que trombou com uma peneira que lá no fundo de seus nozinhos de nylon, diziam todos:

- Carol, vá para a academia!
- Compre a maquiagem da revista!
- Alise seu cabelo, use salto alto, short e blusinha de barradecote!

E então moldou-se na garrafinha do Saci.
Mas engarrafado não furaqueia mais, nem é mais parente de cramunhão nenhum.
Fica assim pálido, sem pretume, sem graça, sem gorro, sem mágica.
Paixão de engarrafamento imagicável.
E lá no se fundo engarrafável, ela até sentiu falta: do elefante, do papagaio, do grito do pai, da tristeza da mãe e da prova da Dona Marisa.
Enfim: isso era ela quem era. E quando percebeu o que é ser, os nozinhos de nylon se desamarraram e a garrafa trincou-se.
Comeu um chocolate, coçou o olho desrrimelzado, catou os piolhos de sua descabeleira e voltou a ventar.
A garrafa partiu. E nunca mais a viu.
Saiu girolinda por aí e não mais precisou de beijo de ninguém, porque agora ela sabia que tudo o que foi é em si, e o que melhor beijo é o que alma dá no corpo.
E viveu sacizando beijoqueirante para sempre.

2 comentários:

  1. :O caraaamba! Adorei!
    Vou te confessar que não entendi tudo, mas entendi o sentir geral. Você é tão poética, acho isso lindo demais! Vou ler outros textos :)

    www.naestradadafantasia.com

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  2. Que bom que gostou, Marina! Obrigada! Bjks e Boas Leituras!

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