"Toda memória de um homem é sua literatura particular"

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Luana Lua


O chão frio e duro machuca minhas costas. Levanto-me. escuto e sinto meus ossos estalarem com uma dor lancinante, como se as vértebras voltassem para o lugar que nunca estiveram, ou como se os membros se encolhessem a um tamanho que nunca tivessem.
Sentado no chão, pernas dolorosamente estendidas, apoio-me com as mãos espalmadas a uns trinta centímetros atrás de minhas costas para tentar segurar o mundo que insiste em movimentar-se ora a trinta graus, ora a sessenta, alternando direita e esquerda. Sinto um fel na garganta. Inevitavelmente vomito sobre meu ventre, e quando me recupero dos soluços corporais provocados pela ânsia, consigo fixar meus olhos em meus sapatos, ou o que parecia ter restado deles, já que estavam sem sola e ainda persistiam em meu corpo graças ao abraço que os cadarços davam em meus tornozelos. Desconheço aqueles tornozelos, aqueles pés. Para confirmar o que ( ou quem) eu estava olhando, lentamente, para não tombar, subo meu olhar pelos resquícios de uma calça rota, estraçalhada, que pronuncia pelos em uma magra e dolorida perna que dobra-se lentamente.
Dor.
Sim, as pernas eram minhas. Os restos daquela vestimenta eram meus.
Quase que involuntariamente reclino meu tronco à frente na tentativa de diminuir a dor e isto faz com que minhas mãos se apresentem aos meus olhos: dedos curtos, palma grande, unhas enormes, carcomidas e negras, como se as marteladas de minha cabeça há muito tempo já havia judiado daquelas unhas presas a mãos que assemelhavam tanto com uma pata.
Cada pancada de dor em minha cabeça traz um zunido agudo, como se fosse a ativação de uma máquina dentro do meu cérebro. Uma máquina que deixa minha consciência nebulosa e que, de dentro da névoa mostram-me a Lua e começo a me recordar de tudo através de sua luz.

"Lua enorme. Única. Rainha da escuridão. Seu brilho cheio era como eletricidade conectando os meus nervos à escuridão noturna, arrepiando pele e pelos, transformando. 
Transformando angústia e medos em desejo e força.
Desejo e Força.
Mais forte que minha vontade, eu tinha necessidade de agradecer à Lua o que ela havia me feito: transformando-me no instinto noturno.
Gritei alto. Ao ponto de as nuvens ao seu redor e ao meu redor se afastassem com meu hálito vigoroso e meu olhar que transparecia Luas amarelas e brilhavam o caminho à minha frente como um farol.
Eu tinha que seguir o caminho em busca. A força me levava à busca. A minha virilidade me comia as entranhas.
O cheiro de fêmea acelerava meu coração que batia desesperadamente de desejo, me impulsionando à correr pelo caminho iluminado pelo meu olhar.
Mãos e pés, patas sem dor afundavam na terra me impulsionando ao desejo.
O cheiro que me enlouquecia vinha daquela casa.
Cheiro de Lua fêmea.
O último beijo do amante na porta da casa, em despedida à namorada que apaixonadamente entrava olhando o amado por cima dos ombros com meiguice do cio.
Espio em tocaia como um animal, esperando o momento certo.
A presa é fácil, não há necessidade de confronto contra um macho tão fraco, que nem chega a ser um adversário. Poupo minha energia para o abate e aguardo pacientemente que ele se vá.
Cautelosamente chego até a janela, pé ante pé, orelhas em pé e em escuta. Vejo a Lua desnudando-se toda para mim. Penetro a janela da casa, subindo pela parede. Penetro as entranhas da Lua fêmea subindo em suas costas. Gritos, unhas, garras, pelos, peles, cabelos, dentes, sangue, dor, prazer em êxtase. e grito:
Luuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuua!
Mas quando olho para baixo, para aquela cara de dor sob meu corpo rijo, tudo o que consigo sentir é ódio. Ódio!
Destroço o corpo da mentira e da ilusão com meus dentes espalhando o gosto de sangue por todo o meu ser. Largo os restos de carne, osso, sangue e esperma e corro alucinado pelo caminho sem fim em busca do cheiro de Lua Fêmea que me enlouquece.
Olho para ela, lá em cima. Onde ela está?
As nuvens: muitas!
Exausto do insucesso, busco o descanso em minha toca costumeira. Corro instintivamente ao caminho de casa quando sinto os primeiros raios mornos de sol queimarem minha nuca, minhas costas. 
Dor! Dor profunda, que transforma a dor metafísica em física. Indescritivelmente dolorido, caio."

- Rogério, Rogério! Meu Deus! O que aconteceu com você? Olhe seu estado, meu querido! Que sangue é esse? Você se feriu? Rogério, querido, por favor, me responda!
Ao abrir meus olhos, vejo bem na minha frente: Luana Lua, cheiro de fêmea.

2 comentários:

  1. :O :O :O :O :O :O :O
    Estou sem palavras! Adoreeeeeeei!
    Com certeza é o conto que mais gostei seu, adoro esses temas :)
    Uhuuul, mal posso esperar o próximo!!

    Beijos!
    www.naestradadafantasia.com

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    1. Obrigada, Ma!
      Vc como sempre muito gentil. Esse conto foi o resultado de uma aula na oitava série onde explicava o que era a técnica flashback. Combinamos de depois das férias cada um ler seu próprio conto com flasback, e claro, que fiz o meu próprio. Depois vou propor à criançada de postar os melhores contos aqui.
      Valeu por seguir, querida!
      Bjks e boas leituras!

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