"Toda memória de um homem é sua literatura particular"

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O sapo

 
            Me escondi na orelha de uma página, pois o vento secava minha membrana e a sensação que me causava era desesperadora. Cada folheada, uma agonia.
            E não era só o vendaval que me fazia sofrer.
        Meu pântano, local tão pacato, se estremece com soluços de um animal desconhecido: Era comprido, branquelo, tinha pelos longuíssimos e amarelos em sua cabeça e parecia que havia passado por algum tipo de vegetação colorida – que eu desconhecia - , pois seu corpo estava coberto de folhas grandes e vermelhas, estreitas e azuis. Com certeza era um predador, pois com essas cores ele não se mimetizava, não tinha medo de ser devorado, e sua boca, era do tamanho de meu corpo.
            Aquela voz que me acompanhou a vida toda, que nunca soube de onde vinha – talvez de dentro dos meus pensamentos... - , que sempre descrevia minhas ações, como mágica, e fazia ventar minha vida, soprou na minha mente que, esse monstro desconhecido chamava-se princesa,e que seus soluços, chamavam-se choro.
            Fiquei parado.
Bem ali: atrás daquela moita.
Perto do número da página.
Do lado do lago.
Escondido: para que o monstro princesa não me devorasse.
(Maldito mosquito! Foi ele quem me delatou! Se ele não tivesse aguçado o meu instinto de gula...).
Quando dei por mim, aquelas patas quentes e branquelas me seguravam delicadamente, e como algum ritual canibal, o monstro princesa soprou um hálito doce sobre minha membrana que fez estremecer minhas pernas traseiras.
Não adiantava, não havia mais como escapar.
Sua bocarra aproximou-se de meus olhos que, esbugalhados, viam a morte cheia de dentes, com uma língua enorme e gorda em minha direção.
Tudo ficou escuro.
Minha boca sentia um gosto doce e melado.
(Calma aí!!! Fui eu quem comi o monstro?!?)
Apenas sentia aquilo se mexendo em minha boca.
E tudo escuro.
Mas quando, aos poucos, a luz voltou aos meus olhos, o monstro princesa ainda estava lá; parado bem na minha frente, com a bocarra cheia de dentes arreganhados para mim – apesar que agora sua boca não parecia tão grande assim...
...ou ela diminuiu , ou... eu aumentei.
Tentei entender.
Olhei para o resto de meu corpo:
“SOCORRO!!! SOU UM MONSTRO PRINCESA!!!”
Já não cabia mais na orelha da página para me esconder.
Ouvi a voz de minha consciência dizendo:

FIM

(01/07/2015)



Boas Leituras!


2 comentários:

  1. Haha, muito bom! Quanta criatividade! To adorando os textos :)

    www.naestradadafantasia.com

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    1. Obrigada por acompanhar os textos, fico feliz por estar gostando! Bjks! Boas Leituras!

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