"Toda memória de um homem é sua literatura particular"

sábado, 23 de janeiro de 2016

1 ano sem João Ubaldo Ribeiro

Oie, povo!




Eu costumo dizer que existem pessoas que nunca morrerão. Uma dessas pessoas é João Ubaldo Ribeiro, que há um ano atrás, dizem por aí, que ele morreu. Mentira! Ele continua na minha estante e nós dois sempre damos muitas risadas com suas crônicas moles e íntimas, que sempre me levam lá pra Ilha, junto com seus amigos e familiares. Estou falando do "Arte e Ciência de Roubar Galinhas".

Para fechar a matraca desse povo intrigueiro, vou contar aqui o que aconteceu lá em 14/04/85, na página 103.




O quê? Vocês não tem um cágado em casa? 

Foi Luiz Cuiúba quem me chamou a atenção para as virtudes do cágado. Estávamos conversando na praça a respeito de ope­rações de hérnia (ele se entusiasmou com a primeira, me disse que ficou viciadinho, agora quer fazer para as outras duas hér­nias) e ele me disse que agradecia sua boa saúde e resistência a seu cágado. Se o Dr. Tancredo tivesse um cágado, nada daquilo haveria acontecido, não sabia como um homem daqueles não tinha um cágado  tinha que ter um no palácio, ali na sala de trabalho dele e, se possível, outro em casa, atémais de dois, quanto mais melhor. Era ou não era?
 Cágado? Como, cágado? Cágado, cágado mesmo?
 Cágado, cágado, cágado! Tem alguma outra coisa que se chame cágado e não seja cágado? Às vezes eu olho assim para você e acho que o estudo demais abestalha um pouco. Quantos livros você já leu?
 Ah, não sei, perdi a conta.
 Perdeu a conta? O que é que você está me dizendo? Tá falando sério?
 Claro, Luiz, isto nãé nada demais. Tem muita gente que leu muito mais.
 Não acredito. Entãé por isso que você não entendeu o negócio de cágado. A pessoa estuda demais nos livros e aínão tem tempo de aprender as coisas.
 Bem...
 É isso mesmo. Você, com mulher e dois meninos em casa, não tem um cágado? Se não fosse você mesmo que estáme dizendo, eu não acreditava. Seu pai e seu avô não, sempre tiveram um cágado em casa. Eu mesmo me lembro do de seu avô, se chamava Aquiles, um belo cágado, de muita confian­ça. Você não se lembra?
 É, me lembro. Um cágado enorme, com umas bolo-tas no casco.
 Pois é, seu pai e seu avô também estudaram, mas não perderam a razão da realidade. Você perdeu a razão da realidade, venho notando que não sabe mais nem pescar.
 Como não sei pescar? Não tenho culpa se seus pes­queiros não dão peixe. Eu...
 Bote um cágado em casa, rapaz, se oriente! Aquele cágado de seu avô tinha para mais de quatrocentos anos, cá­gado ótimo. Mas você pode arranjar um cágado novo, não faz muita diferença. O melhor é o cágado vermelho, da cabe­ça e das patas pintadinhas de vermelho, que não morde e é o mais verdadeiro mesmo, da cabeça preta também quebra o galho, mas nãé cem por cento.
 Cuiúba, vá devagar, eu não estou entendendo nada.
 Viu o que estou lhe dizendo? Qualquer um entendia o que eu falei e você, um homem desses, que diz que é escritor, não entende. Que é que você quer que eu explique?
 Vamos por partes. Você disse que o Aquiles tinha quatrocentos anos. Como é que você sabe?
 O cágado não morre, a não ser de morte matada. Não há caso de cágado morto de morte morrida. Mostre aí na ciência um caso de cágado morto de morte morrida, não hácaso, ninguém nunca viu.
 Se fosse assim, o Aquiles devia ainda estar por aí.
 E não está? Depois que seu avô morreu, ele deve ter ido para outra casa, é que muita gente não gosta de falar sobre seu cágado.
 Está certo, mas por que que eu tenho de ter um cága­do em casa?
 Todo mundo sabe que o cágado protege o homem. Só não protege o mau-olhado, mas, se o olhado for para dar doença, ele não deixa a doença pegar, o cágado chupa qual­quer doença da casa e, como doença nenhuma faz mal a ele, a doença fica por ali com cara de besta, sem conseguir pegar ninguém. E, de qualquer forma, para o olhado você planta um pé de pinhão roxo na porta e... Vai me dizer também que não tem um pinhão roxo em sua casa?
 Tenho, tenho.
 Ah, bem, então só falta o cágado. Ainda mais com duas crianças na casa. Criança vive pegando gripe, dor de garganta, dor de barriga, dor de ouvido, dor disso e daquilo. Essas doencinhas, então, o cágado tira de letra. Principalmen­te se você não acostumar ele mal, deixando comer demais. Aliás, o melhor é não dar comida a ele.
 Como assim, aí o bicho morre de fome.
 O cágado se vira sozinho no quintal. Mas, se você quiser, assim de dois em dois dias pode dar um quiabinho, uma alfacinha, um tomatinho a ele, mas nada de exagero, nãé da natureza do bicho a comilança. E água, nem pensar, mesmo que você dê, ele não bebe. Só bebe água de chuva e, assim mesmo, de anos em anos, uma lambidinha só. Se nun­ca chover, ele nunca bebe água, ele nunca muda de idéia. Se você viajar e largar ele dentro de casa, ele nem liga para a falta de comida, se encolhe ali e espera você voltar e se, quando você voltar, ainda demorar de dar comida a ele, ele não reclama, fica esperando ali com a maior calma. É o melhor bicho do mundo para ter. O cágado que você der a seu filho pode acom­panhar ele para a casa dele quando ele casar, pode acompa­nhar o filho dele, o filho do filho e assim por diante, até a pes­soa querer. É o melhor bicho do mundo para ter e o bicho que todo mundo tem que ter em casa.
Fiquei impressionado. Cheguei em casa, contei tudo à mulher, comuniquei que providenciaria imediatamente um cágado, embora não soubesse como.
 Se é contra dor de ouvido nos meninos, aceito até um elefante  disse ela.  Eu gostaria de dormir pelo menos uma noite por ano.
Telefonei para meu pai, ele certamente me daria algu­ma ajuda, afinal, como Cuiúba havia antecipado, ele de fato tinha em casa não só um cágado, mas uns seis ou sete, num cercadinho do quintal.
 Você não tem um cágado em casa?  gritou ele, as­sim que eu comecei a falar.  Eu nunca soube disso! Quer dizer que os meninos estão sem cágado? Isto é uma irres­ponsabilidade!
 Mas, meu pai, eu não sabia.
 Ignorante! Todo mundo sabe disso, não sei onde vocêtem vivido, assim sem saber das coisas mais elementares. Envie um portador imediatamente, vou mandar um cágado para meus netos, é preciso corrigir essa sua irresponsabilidade!
Vavá Paparrão, bondosamente, foi a Salvador buscar o cágado. Voltou já de noite. Nãé um cágado, é uma cágada, muito engraçadinha, carinha rosada, patinhas pintadas de encarnado, maneiras gentis. Jovem, muito jovem, não deveráter mais de 50 ou 60 anos  imagino que Cuiúba diria. Ficamos encantados, Bentão deu vários beijos no casco dela, decidiu que o nome dela era Lili, comunicou que tinha ficado bom da dor de garganta. Lili, como se vêé uma cágada de efeito rápido e agora, numa casa esplendorosamente sadia, játem seu cantinho favorito e fez amizade em toda a vizinhan­ça. Não sei como vocês não têm um cágado em casa, a igno­rância de vocêé um espanto.

Quer conversar mais com o João Ubaldo? Então...
Boas Leituras!

A Arte e Ciência de Roubar Galinhas: crônicas.
João Ubaldo Ribeiro
Editora Códice
264 páginas

8 comentários:

  1. Oi, tudo bem ?
    Não conhecia e achei incrível.
    O autor quando mexe com a gente, vive pra sempre na nossa memória e nas nossas estante né.

    ps: claro que pode indicar o blog *-* indiquei seu cantinho de coração, as pessoas precisam conhecer aqui :D

    Bj, boa semana!


    @saymybook
    saymybook.blogspot.com

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  2. Que bom que gostou, Je!
    Bjks e Boas Leituras!

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  3. Olá! Eu não conhecia o autor. Mas, sei que ele não morreu no coração dos admiradores.
    http://quetal-carol.blogspot.com/

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    1. Oie, Carol!!!

      Com certeza, tem pessoas que são eternas! Se vc gosta de crônicas, vc vai adorar, Carol!

      Bjks e Boas Leituras!

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  4. Oi Fabi, ta boa?
    Aqui é a Jess do Saymybook
    Queria te mandar o marcador do blog *-*
    poderia me mandar seu endereço por e-mail, saymybook@hotmail.com
    bj <3

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    1. Oi, Jess!!!

      Que fofa! Vou adorar! Jájá receberá meu email!
      Bjks e Boas Leituras!

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  5. Que delícia de crônica!!! Adoro!! <3
    Obrigada por compartilhar!!
    Bjos

    http://leitoranaholanda.com.br

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    1. Oie, Helena!

      João Ubaldo é tudo de bom mesmo, né?

      Bjks e Boas Leituras!

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