terça-feira, 22 de outubro de 2019

Um apólogo



Outubro está chegando ao fim e com ele também terminamos a homenagem ao nosso escritor crush aqui do Língua e Literatura: Machado de Assis.
Para fechar com chave de ouro, quis trazer um conto super curto, divertido e atual para lermos e fazermos uma breve análise, só pra terminar de convencer você, meu caro leitor, de que ler clássicos não tem nada de chato. Trouxe pra leitura hoje o conto:

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Um Apólogo

ERA UMA VEZ uma agulha, que disse a um novelo de linha: 
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo? 
— Deixe-me, senhora. 
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça. 
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros. 
— Mas você é orgulhosa. 
— Decerto que sou. 
— Mas por quê? 
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu? 
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu? 
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados... 
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando... 
— Também os batedores vão adiante do imperador. 
— Você é imperador? 
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto... 
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha: 
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima. 
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile. 
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
 — Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. 
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
 — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: 
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

 FIM




Parece besta e infantil, não parece? Mas não é! 
Este conto foi publicado pela primeira vez em 1896, ou seja, 9 anos depois da criação da Lei dos Sexagenários. O Brasil, estava em polvorosa com as mudanças políticas e sociais da época e a sociedade dividida entre terminar ou não a escravidão no país, enquanto isso, Machado já escrevia com as influencias realistas que lhe são tão características e, com seu humor cítrico, perspicaz e metafórico, analisava todo o contexto social e o publicava dando sua opinião sobre a situação do país.
Pra quem não sabe, apólogos são pequenas narrativas desenvolvidas por personagens inanimados que, criando vida, levam o enredo a um cunho moral em seu final. E porque Machado escolheu esse gênero, e não apenas o escolheu como também nomeou o conto com o nome do gênero? Será que ele tinha como público alvo as crianças? Claro que não, afinal de contas, pouco ou nada se escrevia para o público infantil no final do século XIX. A ideia era realmente escrever pra burguesia, que era o público leitor e alfabetizado da época. 
Maliciosamente temos esse título pois o autor compara toda a sociedade como reles objetos: somos todos manipulados ou por nossos interesses pequenos e mesquinhos ou mais ainda, por alguma mão que nos usa para costurar o que bem quiser; a mão, no caso, é da costureira, possivelmente uma mulata alforriada que, por sua vez, é manipulada pelas vontades da Baronesa que a mantem para costura. É uma sociedade em camadas e camadas, que como uma cebola, o miolo não sabe nada da casca e vice versa. Além disso, a comparação entre a agulha e a costureira e a linha e a Baronesa é bem clara. A agulha faz todo o trabalho braçal, não tem cabeça, pois não é alfinete, assim como a costureira que cose todo o vestido sem questionar um A se queira, enquanto a linha, toda orgulhosa e vaidosa e´a que vai ao baile, assim como a Baronesa.
O narrador é todo em terceira pessoa, isso nos leva a pensar que ele exista apenas para nos relatar o ocorrido entre a agulha e a linha, porem, no último parágrafo, o narrador se revela em primeira pessoa! Pronto, lá vem Machado conversar conosco e consigo próprio, aliás, essa é uma característica muito marcante do autor: essa proximidade, como se ele nos conhecesse. Diz o narrador que contou essa história a um professor de melancolia (onde estuda-se melancolia a não ser no dia-a-dia, em nossas próprias vidas?) que diz ter sido agulha pra muita linha ordinária nessa vida. Ao meu ver, esse tal professor nada mais é do que o próprio autor que por toda sua vida foi funcionário público, jornalista, tipógrafo, ou seja, foi tão manipulado quanto a agulha do conto e vendo por esse ângulo, vemos que o público alvo dessa narrativa não é apenas a burguesia, mas é  um desabafo auto reflexivo sobre a própria postura do autor diante da sociedade em transformação, levando a pensarmos de quanto ele estava envolvido ou via e conhecia a politicagem da época, das mão que manipulavam a população-objeto da vida apológica que temos. Aiai, Sr. Machado, lhe falo uma coisa, aqui as beiras de 2020, nada mudou. Outras leis contra a escravidão já foram criadas e vigoradas, mas existem tantas outras escravidões sobre nós, reles agulhas....

Espero que tenham se encantado com Machado, seja em seu período romantico, seja em seu período realista. Convido a todos a virem ler Machado conosco e deixar abaixo seus comentários!
Bjks e Boas Leituras!

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Um comentário:

  1. Ameeeeeeeei! Quantas agulhas e linhas ainda existem e existirão nesse mundo, não? É de se pensar. Ótima reflexão!

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