segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Desafio de escrita criativa: Mulheres modernas - por Fabi SAnchez

Olá, queridos leitores!

Esta semana o desafio de escrita é "escrever sobre algo histórico".
O mais interessante nesta proposta é o engajamento de pesquisa. Na verdade, toda escrita merece pesquisa prévia, e hoje  (na verdade, acho que sempre tivemos) uma onda de escrevinhadores que se declamam escritores, publicando em blogs e plataformas de escrita meros desabafos, sem técnica e sem arte alguma. Podem me chamar conservadora, mas como a Língua é minha profissão, a defendo, e em homenagem a isso, vou escrever com o tema da Semana de 22, sim aquela semana de arte moderna, você já ouviu falar? Se não ouviu, vou dar uma pincelada no pequeno conto que escreverei abaixo

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Mulheres modernas

- É um despropério!
Mamãe estava tremendamente irritada. A semana havia sido lamentável a seus olhos.
- Se seu pai estivesse vivo, tenho certeza que reprovaria essa balbúrdia, Carmem - com a mão sobre o peito, como que para acalmar o coração saltitante - Seu pai tinha uma voz divina, lembro-me como se fosse hoje ele cantando - suspira forte e logo amarra a feição novamente, com o olhar profundo nos olhos de Carmem - a arte foi o mal de seu pai, antes ele tivesse ficado com os trens por São Paulo adentro.
Mamãe levantou-se com uma determinação e uma agilidade que parecia uma mocinha de 16 anos. Ela nunca se recuperara não exatamente da morte de papai, mas como ele havia morrido, encontrado naquela cabine de trem indo para Paris. Todos nós sabíamos que as viagens de negócios de papai eram misteriosas e cheias de artistas e mulheres esplêndidas, mas nós nunca nem sonhávamos em mencionar qualquer coisa. No fundo mamãe sempre soube.
Pra mim, mamãe parecia com as locomotivas de papai: feita de ferro duro, agitada, moderna, ninguém a segurava, desbravando novos caminhos por onde passasse, mas o seu interior, a sua alma, era como as fazendas de café de vovô: tradicionalíssimas, caboclas, austera, soberba. Ela vivia nessa contradição e sempre cobrava de mim, a filha mais velha, que acompanhasse as novidades da Europa e que me dedicasse aos estudos independentes, que eu pudesse continuar os negócios da família, mas ao mesmo tempo, eu sabia que ela vivia procurando algum pretendente que conviesse. E essa era uma das razões de termos ido à Semana de Arte Moderna no Municipal. E o que eu quero? E quem eu sou?
Eu quero ser aquilo que me confunde a alma e mostrar pra todos que sou um emaranhado limpo, quase infantil, como as obras da Senhorita Anita que não sei porquê não se expôs nesta semana. Quero mostrar meu inconsciente, conscientemente, sem dever explicações aos padrões, sem ter que ser uma baronesa do café. Quero vestir calças e sair galopando em busca do fim da linha do bonde e conduzi-lo ao além mar até chegar ao topo da torre Eifel e vislumbrar com uma xícara de chá um dirigível livre flutuando pelo espaço.
- Carmem! Estou falando com você! Tem certeza que vai ao Theatro usando esse chapéu e esse vestido? 
- Sim, mamãe, é o mais próximo do que sou.
- Eu não aguento essa sua conversa do que você é. Quanta preocupação, parece que vive cavando o peito! Eu não sei se são seus livros ou se é falta de casamento o que te causa isto... Você tem lido esse Sr, Picchia, não tem, Carmem?
- Apenas uma coisa ou outra...
- E o tal Bandeira que ele citou ontem?
- Ah, mamãe, coitado, é apenas um rapaz doente e solitário.
- E com ideias bem duras contra a arte verdadeira da poesia como diamante de expressão.
- Arte é arte, mamãe!
- Sim, minha querida, eu sei, mas esses jovens não tem técnica, são infantis.
- A grande maioria estudou nas Bellas Artes, mamãe, como o papai, ou tem bacharelado em direito, medicina ou letras mesmo... eles sabem o que fazem, só querem mostrar que as vezes, o simples é o melhor a ser feito.


- Simples? Você diz isso porque nunca viveu o simples, minha filha, você é uma Dumont Villares, vive nesta casa "simples" e recém reformada aqui na Paulista, veste o melhor, está nos melhores ciclos sociais, tem o melhor estudo, coisa que a senhorita sabe muito bem que é raro para as moças do café... esses velhacos querem que fiquemos sendo suas mulheres e escravas de seus prazeres e de seu dinheiro.
- Mas papai te deu este casarão, ele tem seu nome, mamãe!
- Não fez mais do que a obrigação, depois de tudo que fiz por ele! E chega! Já que está pronta, vamos, pois não quero me atrasar pro último dia de concerto. 
- Até parece que a senhora está gostando de tanta modernidade.
- Gostando é dizer muito, mas uma mulher moderna não pode estar atrás do que a sociedade tem a oferecer.
E muito modernamente foram as duas, mãe e filha, sozinhas ao último dia de espetáculos ao Theatro Municipal.


Desafio da semana feito. Gente, foram pouquíssimas linhas, mas para escrever, tive que me recordar da Semana de 22, pesquisando o cronograma, escolher uma família da Paulista que se encaixasse com o que eu queria escrever, pesquisar sobre a mesma e o próprio casarão... foram, ao menos, umas duas horas de pesquisa e mais uma de escrita e revisão, para o leitor ler em dois minutos. E fico aqui, na expectativa, esperando que tanto trabalho tenha tocado vocês de alguma forma, deixe seu comentário aí embaixo pra eu saber o que acharam.

Bjks e boas leituras!



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Um comentário:

  1. Os desejos da Carmem chegam a ser simples para os dias de hj, parabéns pelo texto Fabi 😍

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