sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Desafio de escrita: Hotel Lua - por Leila Jacob

Caro leitor,
Estava com saudades de postar aqui no L&L, como a Fabi disse no post anterior o mês de agosto foi bem atarefado, mas estava o tempo todo lembrando da escrita e anotando ideias que me vinham dentro do ônibus, lavando a louça, assistindo e até mesmo no banho.

O desafio da semana é algo que achei até mesmo bobo quando li, vejam bem, pegue o livro mais próximo e abra na pagina 27, leia o primeiro parágrafo e escreva algo baseado nisso.  
O livro que peguei é um xodó da minha vida literária "A carne dos anjos" de Siobhan Dowd, comprei esse livro em um extinto sebo aqui do bairro.

O primeiro paragrafo é:

"O modo como ele disse seu nome foi como uma benção"

Então vamos voltar com tudo, começando o desafio da semana.


A multidão de pessoas saindo do metrô com casacos e botas era uma visão que Léa gostava, o clima de outono era o seu preferido. As pessoas passavam com pressa e esbarrando nela, mas Léa não se importava de ser lentidão no caos da cidade, há um ano e pouco era ela quem corria para chegar no trabalho mesmo com o horário adiantado, hoje em dia não valia mais a pena.

Depois da morte do marido a moça tinha saído do trabalho para ir ao interior passar um tempo curando as feridas com o ar das montanhas, isso tinha ajudado muito, mas a sede por trabalho tinha voltado há algumas semanas. Sem nem mesmo pensar, ligou para o antigo trabalho pedindo um emprego e ali estava ela, iria como temporária, por alguns dias.

O hotel Lua era o lugar onde Léa queria estar sempre, antes de conhecer o falecido marido. Trabalhava sem querer parar por dias e dormia entre um lençol e outro da lavanderia.
Amava o seu emprego e queria sempre estar à disposição das pessoas, mesmo havendo umas maçãs podres como cliente. Ela os servia com toda hospitalidade do mundo.

Chegando na porta do Hotel, ela sentiu um friozinho na barriga como se nunca tivesse entrado naquele lugar. Com toda a coragem do mundo empurrou a porta giratória e foi direto à recepção. Pessoas novas estavam no atendimento, o que era esperado, já que o grupo M havia comprado o hotel naquele ano. Com certeza muita coisa havia mudado.

-Bom dia, senhora, como posso ajudá-la?

-Bom dia, o gerente está à minha espera, sou a subgerente nova.

A recepcionista mediu a mulher dos pés à cabeça, achando-a bem estranha para o cargo, mas ela sabia que não iria durar muito, achou que seria o desespero do chefe por não achar alguém à altura, qualquer um ficaria por uns dias.

- Ah, acho que ele te espera na entrada de funcionários que é pelos fundos.- apontou com desdém para um corredor lateral que Léa desconhecia até então.

Percebendo a falta de empatia da moça, Léa agradeceu e seguiu pelo corredor, entrou na sala onde os funcionários entravam e percebeu que a equipe estava toda reunida. Na mesma hora viu as colegas de trabalho de sua época, Bianca e Luzia, que lhe ofereceram olhares e sorrisos reluzentes.

Bianca correu ao seu encontro e deu um grande abraço, ela era amável e muito engraçada. Mesmo não sendo amigas Léa se sentiu feliz por ter alguns rostos conhecidos por ali.

- Léa, o que está fazendo aqui? Que saudade de você mandando em mim. Sinto muito pelo o que aconteceu com seu marido, espero que esteja bem. Ah, espera, você é a nova...

Antes da moça terminar a frase um homem alto entrou no recinto e todos que estavam ali se calaram. Ele usava um terno com uma medalhinha pequena presa do lado esquerdo do peito.
Léa olhou ao redor e percebeu que os funcionários estavam receosos com a chegada do homem. O grande homem olhou para todos os funcionários uniformizados exceto uma mulher que usava um enorme sobretudo caramelo com grandes botões que roubava toda a atenção daquela sala.

Ele estranhamente chegou perto de Léa devagar e perguntou num tom baixinho que só ela conseguiu ouvir.

- A senhora é quem eu estou esperando às 9H00?

Ela olhou para medalha com o nome e cargo do homem, Jean Lima, gerente. Ela o encarou e balançou a cabeça afirmando. Ele, elegantemente, voltou ao seu lugar e respirou fundo se preparando para as novidades que iria contar.

- Bom dia, espero que todos estejam bem. Convoquei todos aqui para uma breve reunião pois quero deixar algumas informações importantes com todos. Alguns de vocês são funcionários novos, alguns já estavam aqui e outros vieram de outras localidades, esses últimos já me conhecem. Sou o novo gerente do Hotel Lua, Jean Lima.
Creio que o treinamento dado no ultimo mês já deixou todos aqui capacitados, acreditem, se não fossem não estariam aqui hoje.
Então, quero que deem o melhor para que nosso hotel seja um dos melhores como sempre tem sido. E na falta de um subgerente, estamos com uma temporária que irá comandar vocês e me auxiliar nessa nova jornada, que é a senhora Léa Maia. Venha até a frente para todos verem a senhora melhor.

Léa sentiu uma pontada no peito, já não usava o sobrenome do marido alguns meses e ninguém a chamava pelo nome e sobrenome onde estava e muito menos a chamavam de senhora. Os olhos queimaram querendo soltar lagrimas, mas ali não era lugar e nem hora de chorar. Indo em direção ao gerente viu que era seu dever corrigir.

-Bom dia a todos, espero que sejam dias produtivos para todos nós, e senhor Jean, uma correção, meu nome é Almeida, Léa Almeida.

Ele a encarou com uma expressão estranha mas logo suavizou o semblante. Nesse momento ela percebeu que ele era peculiarmente bonito, logo a moça olhou para outro canto da sala com o rosto corado. O homem engoliu a saliva observando a atitude da mulher ao seu lado, não era algo que ele esperava.

- Desculpe-me pelo erro então, corrigindo, a subgerente chama-se Léa Almeida. Todos estão dispensados para continuar o trabalho.

A sala foi se esvaziando e os gerentes do hotel Lua ficaram a sós, ele a encarava sem piscar nem mesmo por um segundo. Léa estava sem saber como agir, os anos de experiência na hotelaria pareciam ter sumido em poucos meses, como agir com um superior? Tomando coragem quebrou o gelo.

- O senhor tem alguma recomendação? Onde eu devo começar?

- Hoje você vai passar o dia comigo, e Léa Almeida é um bonito nome.

E saiu da sala sem nem mesmo orientá-la. Bianca que estava na porta da sala entrou com um grande sorriso no rosto.

- Nossa, mas que tipo, hein? Você viu como ele falou com você, o modo como ele disse seu nome foi como uma benção. Serão dias cheios de novidades.- disse a moça dando alguns tapinhas nas costas de Léa.

Pela primeira vez naquele dia Léa sentiu medo de verdade, mas já estava na chuva então iria se encharcar. 






Siga-nos no Instagram

@fabipsanchez78
@tworeadergirls
@cristianeolis78
@culinariaehorta
@leilabookcook 




Nenhum comentário:

Postar um comentário